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História de vida contada ponto a ponto

Fonte: Estado de Minas - http://goo.gl/go6Ylj

Ela é de Pirapora. É bordadeira desde criancinha – e com muito orgulho. Nem imaginava chegar aonde chegou com o que costuma chamar de “bordadinho de criança”. Começou a alinhavar pontos por puro prazer, e, de quebra, ia dando sossego à mãe, já que era uma mocinha arteira e adorava brincar na rua. Acabou que a ocupação inventada virou meio de vida e aquela brincadeira boba de vender paninhos bordados para o avó se tornou profissão. Ela cresceu e se casou, aos 16 anos, passando a se dedicar feito gente grande à produção do enxoval dos filhos. Quando viu , bordava para dentro de casa e para fora. E, daí pra frente, o talento ganhou vida e fama. Aqueles ‘bordados de criança’ viajaram o mundo, cruzaram fronteiras, se tornaram livro, obra de arte e até capa de disco de artista famosa como Maria Bethânia.


Antônia Zulma Diniz Dumont é o nome dela. Se deixar, essa senhora simpática , de 83 anos, borda ainda o dia inteiro. Visão e destreza para isso ela tem de sobra. A visão é ‘bênção divina’ e continua a mesma de menina. Ela só reclama um pouco da memória. Mas o que não chega a ser um problema. Talvez a falta de sossego a incomode mais. Está sempre de lá pra cá e de cá pra lá. É que depois da tristeza de perder o marido há quatro meses, companheiro com quem foi casada por exatos 67 anos, passa temporadas na casa de cada filho. Mas sempre encontra um jeito para reencontrar sua paz, o seu prazer: bordar – e para visitar a fazenda da família em Pirapora, outra delícia na vida.


Quem vê de perto seu bordado é capaz de ouvir o barulho do rio correr, de sentir a emoção da criança que sobe descalça na árvore ou compartilhar a fé da moça ao rezar. Céu, estrela, jardim, santa, flor, menino, passarinho, esse, então, dá até para pegar na mão. Ela atribui tamanha beleza e realismo das peças aos desenhos que servem de molde – hoje não mais feitos por ela, mas pelo filho artista, Demóstenes Vargas, o único entre seus filhos homens que aprendeu a bordar. Mas que ninguém se engane: as mãos abençoadas de Antônia também estão lá. A filha Martha diz que a “mãe tem um bordado clássico” e elas (as filhas e netas) o transformaram em outra coisa que também deu certo. E como deu! Hoje, não sobra mais tempo para Antônia e suas ‘meninas’ bordarem enxovais de bebê, roupas de cama ou vestidos de noiva. As sublimes tarefas cabem agora às bordadeiras do Instituto de Promoção Cultural Antônia Zulma Diniz Dumont (Icad) fundado há 6 anos, em Pirapora. A iniciativa nasceu para levar inclusão social a centenas de mulheres, que, a partir do desenho da família Dumont, continuam o trabalho de bordar peças sob encomenda, contribuindo assim com a missão da Matizes Dumont de resgatar o bordado artístico no Brasil. O Instituto também promove oficinas em todo o país – e também fora, como na Espanha, onde Antônia e família já ministraram workshops.